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CIRCUITO 3: CASMILO - SENHORA DO CIRCO
Mapa | Visita Virtual | Aldeias e Sítios | Paisagem cársica: lapiás e “buracas” | Exsurgências e termas da Arrifana | Carrascal da Serra de Janeanes | Mato da Serra de Janeanes e Maria Pares

 Mapa
 Visita Virtual
  • Canhão fluvicársico e buracas do Casmilo
     Aldeias e Sítios

    No trajecto que liga a depressão do Rabaçal a EN1, em direcção a Soure, sucedem-se as povoações de Janeanes, Casmilo, Furadouro e Arrifana. Pertencem ao concelho de Condeixa.

    No séc. XII, Janeanes chamava-se Janea e também Genéa. Em 1527,foi arrolada como Johã Eanes que pode ter sido seu donatário.

    Ao longo dos tempos, tem visto muitos romeiros subirem a serra para cumprir promessa a Senhora do Livramento, por tê-los livrado da tropa. Venera-se na capela da Senhora da Espectação que já não existe, mas está representada por outra imagem antiga. Merecem visita.

    O Casmilo onde deve ter existido um castro, na Idade do Ferro, é outra aldeia tipicamente serrana. Difícil é saber de onde o seu nome deriva, mas já era citado em 1527 e na modesta capela, dedicada a S. Paulo, o santo data do séc. XV. Provavelmente é tão antiga como a vizinha Furadouro, actual sede de freguesia, e já no séc. XI atribuída ao termo de Coimbra. O nome diz tudo: atalho por onde alguém foge sem ser visto. Por vezes, uma vantagem; no geral, o isolamento que em tempos modernos tem conduzido ao abandono deste sector setentrional do Maciço de Sicó, escasso de água e verdura e onde a pedra domina.

    Os que por cá ficam entregam-se ao amanho das terras no fundo dos vales e depressões cársicas e a magra pastorícia em rebanhos que, por vezes, não ultrapassam dezena de cabeças. Expressão visível destas actividades são o “arranjo” das dolinas, com vista a provisão de água para o gado, os muros e montículos de pedra solta ligados a tarefa de despedrega dos campos e as características cabanas de pastores, marcas na paisagem que mais avivam o seu carácter selvagem, agreste e inóspito. Nas aldeias, as casas de pedra mantêm ainda visíveis as caleiras de recolha das águas pluviais e as cisternas para seu armazenamento, marcas que testemunham o engenho com que estas gentes sempre souberam suprir a falta de água típica do carso.

    Em tudo contrastante com estas aldeias é a Arrifana, que actualmente conta 314 habitantes. Situada na base da serra e farta de águas, excelente olival, todos os primores da horta, algum vinho, comunicações fáceis – as condições para que o lugar tenha sido ocupado desde muito cedo. O arrolamento de 1527 atribui--lhe já cerca de 90 moradores, mas o nome denuncia a presença árabe e um achado arqueológico fortuito sugere ocupação pré ou proto-histórica.

    Furadouro

    No caminho Janeanes - Chanca - Rabaçal

     Paisagem cársica: lapiás e “buracas”

    Percorrendo a estradinha que liga o Zambujal a Serra de Janeanes, recomenda-se vivamente uma paragem no alto da cornija calcária que  limita a depressão do Rabaçal a ocidente. Com efeito, do vértice de Maria Pares ou das pequenas elevações próximas, desfruta-se uma vista magnífica sobre a vasta depressão e a paisagem tipicamente mediterrânica que ela encerra.

    Já no maciço, merece realce o conjunto de formas que, nas proximidades do Casmilo, traduzem o carácter cársico da paisagem. Aqui, tanto podem ver-se grandes formas como a depressão de tipo uvala e que se desenvolve a oeste da povoação e o vale de tipo reculée sobre o qual a aldeia se encontra suspensa, como formas de pormenor, entre as quais estão os lapiás.

    A poucas dezenas de metros da povoação encontra-se, um dos campos de lapiás mais espectaculares de todo o Maciço de Sicó. A vegetação, rasteira e escassa, o quadriculado dos sulcos, o rendilhado do pormenor, conferem a este espaço uma beleza rara e singela que encanta tanto os académicos como os grupos de espeleólogos e montanheiros ou os simples passeantes ocasionais.

    No entanto, em termos de morfologia cársica, o nome de Casmilo aparece inevitavelmente associado ao Vale das Buracas, pequeno canhão fluviocársico com as vertentes quase totalmente escavadas por abrigos sob rocha e pequenas lapas, as célebres buracas onde, até há pouco tempo, se agasalhavam os rebanhos de cabras e ovelhas, e que ainda hoje alimentam histórias e lendas.

    As “buracas” correspondem, de facto, a pequenas reentrâncias de desenvolvimento horizontal, cuja abertura e profundidade raramente ultrapassam a dezena de metros. Embora possam ser entendidas como testemunhos de formas do carso profundo, elas relacionam-se, antes de mais, com a evolução superficial das vertentes calcárias escarpadas, devendo ter-se formado em épocas mais frias que a actual, provavelmente durante o último período frio do Quaternário. Aliás, tanto na base destas como na de outras vertentes escarpadas com “buracas”, são visíveis os depósitos de gelifractos, testemunho inequívoco de que a rocha se fragmentou pelo gelo.

    Pelo Vale das Buracas ecoa, muitas vezes, o silvo estridente da águia-de-asa-redonda.

    Frequente aqui, em todo o território nacional e na Europa, esta rapina está presente nas áreas agricultadas ou nas pastagens onde existam árvores dispersas ou marginadas por áreas florestais. Postes eléctricos ou telefónicos são por si frequentemente utilizados como pontos de observação.

    É fácil reconhecê-la: o vulto castanho-escuro de asas largas e cauda circular executando acrobacias aéreas, sobre as encostas. Aproveitando o vento frontal, fica por vezes imóvel, como se um fio invisível a prendesse ao céu. O seu olhar penetrante pesquisa junto ao solo os movimentos descuidados de qualquer pequena ave ou mamífero.

    Longe dos olhares gulosos da águia-de-asa-redonda ou do perturbador comportamento dos humanos, no fundo das fissuras dos calcários ou na escuridão das grutas, os morcegos aguardam o lusco-fusco para se deleitarem até aos primeiros momentos da alvorada com a sua refeição diária. Dos cantos mais recônditos das “buracas” sai uma multidão destes mamíferos-voadores de várias espécies que, sem darem tréguas, se precipitam em caça nocturna sobre a miríade de insectos que enxameiam o vale. Todas as noites.

    A Serra do Circo, ou da Senhora do Circo ou do Círculo é um relevo tectónico fortemente assimétrico. Apesar do seu cume não ultrapassar os 406 metros, daqui se dominam não apenas as paisagens cársicas do Vale das Buracas e da Serra do Rabaçal, visíveis para oriente, mas também uma vasta área que nos leva às praias da Figueira da Foz e aos campos do Mondego, permitindo, como nenhum outro sítio, uma leitura arqueológica da paisagem. Subindo a esta serra, compreende-se mais facilmente a evolução que traçámos nas primeiras páginas deste roteiro. Pena é que o carácter magestoso deste cenário natural seja ensombrado pelas enormes feridas que, nos últimos anos, o homem nela tem vindo a abrir numa incessante busca de pedra.

    Outro atractivo deste cimo são alguns aspectos cársicos de pormenor do relevo que aqui se lavra. Desde os campos de lapiás, mais ou menos enterrados, até uma dolina parcialmente cultivada e o pequeno algarocho que se abre no fundo, há todo um sentimento provocado pela paisagem cársica que apenas pode ser fruído por quem visitar esta serra.

    A omnipresença da pedra, a secura das terras, a vastidão e o carácter agreste da paisagem, enfim, a sensação de temor que se respira, justificam certamente a profunda religiosidade dos camponeses serranos e os cultos aqui desenvolvidos.

    A par de práticas ocultistas que discretamente se realizam em noites que só os iniciados conhecem, a festa religiosa anual continua a registar muita gente, atraídos alguns pela romaria, a maior parte pela devoção a Senhora de muitos milagres. Contudo, muitas coisas mudaram na tradição, desde o dia da festa ŕ apanha das cucas que os rapazes ofereciam às namoradas.

    Neste caso, perdeu o costume o que a natureza ganhou, pois a cuca mais não é do que a rosa-albardeira, já tão rara.

    No ponto mais alto da serra, donde em dias límpidos nos chega o azul do mar, já na Idade Média se erguia templo a Senhora do Circo, materializada em imagem gótica que ainda hoje se venera. A capela foi barbaramente modernizada mas guarda o círculo de pedra que a protege e que pode estar na origem do nome da virgem, testemunhando – quem sabe – outras formas de culto mais antigas.

    Festa da Senhora do Círculo: 2º Domingo Pascal

    Vista de Maria Pares

     Canhão fluviocársico do Casmilo

    Buracas do Casmilo

    Dolina da Senhora do Circo

     Rosa-albardeira
     Exsurgências e termas da Arrifana
    A água, esse bem tão raro no interior do maciço calcário, abunda, por imperativo do modo de circulação cársica, nos deprimidos sectores marginais. A exsurgência da Arrifana, que dá razão de ser ao rio dos Mouros, já antes apelidado de rio, mas que só aqui ganha o carácter permanente no escoamento que lhe garante este qualificativo, é uma das mais importantes exsurgências do sector setentrional do Maciço de Sicó, com caudais médios anuais que rondam os 5 Mm3 e caudais instantâneos que podem alcançar os 350 l/s, actualmente exploradas para abastecimento público.

    Nas suas proximidades, do outro lado da EN1, há outras pequenas exsurgências cársicas que justificaram, ainda nos princípios do século XX, os chamados Banhos da Arrifana. Condicionalismos tectónicos justificam uma chegada de águas mais profundas, mais quentes (pouco acima dos 20 C) e mais mineralizadas que, sem constituírem verdadeiras termas, eram utilizadas como tal no período áureo do termalismo português.

     Carrascal da Serra de Janeanes
    O carrascal que se encontra nesta serra equivale a uma etapa de substituição da floresta de carvalhos-cerquinho que por longos tempos a cobriram.

    Juntamente com o carrasco, surgem outras espécies mediterrânicas arbustivas de folhas coriáceas ou espinhosas, entre as quais avulta o zambujeiro.

     Zambujeiro
     Mato da Serra de Janeanes e Maria Pares
    O aspecto da Serra de Janeanes e da elevação de Maria Pares é a de um mato espesso e baixo dominado por roselhas, saganho-mouro e erva-de-Santa-Maria.

    Nestas áreas mais abertas, formadas pela degradação da vegetação mediterrânica, em particular do carrascal, surge um número relativamente elevado de plantas anuais e rizomatozas, entre os quais sobressaem os lírios, os narcisos e as orquidáceas, nomeadamente a satirião-menor, e a erva-língua que povoam as serras calcárias,nos meses de primavera.

    Devido à deficięncia de água do solo e ao desaparecimento do estrato arbóreo, os arbustos adquiriram um hábito quase em coxim, apresentando-se por isso baixos e com ramificaçăo densa.

    Entre as espécies herbáceas, com características mediterrânicas, podem observar-se a salva e a Anemone palmata.

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