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Percorrendo a estradinha que liga o Zambujal a Serra de Janeanes, recomenda-se vivamente uma paragem no alto da cornija calcária que limita a depressão do Rabaçal a ocidente. Com efeito, do vértice de Maria Pares ou das pequenas elevações próximas, desfruta-se uma vista magnífica sobre a vasta depressão e a paisagem tipicamente mediterrânica que ela encerra.
Já no maciço, merece realce o conjunto de formas que, nas proximidades do Casmilo, traduzem o carácter cársico da paisagem. Aqui, tanto podem ver-se grandes formas como a depressão de tipo uvala e que se desenvolve a oeste da povoação e o vale de tipo reculée sobre o qual a aldeia se encontra suspensa, como formas de pormenor, entre as quais estão os lapiás.
A poucas dezenas de metros da povoação encontra-se, um dos campos de lapiás mais espectaculares de todo o Maciço de Sicó. A vegetação, rasteira e escassa, o quadriculado dos sulcos, o rendilhado do pormenor, conferem a este espaço uma beleza rara e singela que encanta tanto os académicos como os grupos de espeleólogos e montanheiros ou os simples passeantes ocasionais.
No entanto, em termos de morfologia cársica, o nome de Casmilo aparece inevitavelmente associado ao Vale das Buracas, pequeno canhão fluviocársico com as vertentes quase totalmente escavadas por abrigos sob rocha e pequenas lapas, as célebres buracas onde, até há pouco tempo, se agasalhavam os rebanhos de cabras e ovelhas, e que ainda hoje alimentam histórias e lendas.
As buracas correspondem, de facto, a pequenas reentrâncias de desenvolvimento horizontal, cuja abertura e profundidade raramente ultrapassam a dezena de metros. Embora possam ser entendidas como testemunhos de formas do carso profundo, elas relacionam-se, antes de mais, com a evolução superficial das vertentes calcárias escarpadas, devendo ter-se formado em épocas mais frias que a actual, provavelmente durante o último período frio do Quaternário. Aliás, tanto na base destas como na de outras vertentes escarpadas com buracas, são visíveis os depósitos de gelifractos, testemunho inequívoco de que a rocha se fragmentou pelo gelo.
Pelo Vale das Buracas ecoa, muitas vezes, o silvo estridente da águia-de-asa-redonda.
Frequente aqui, em todo o território nacional e na Europa, esta rapina está presente nas áreas agricultadas ou nas pastagens onde existam árvores dispersas ou marginadas por áreas florestais. Postes eléctricos ou telefónicos são por si frequentemente utilizados como pontos de observação.
É fácil reconhecê-la: o vulto castanho-escuro de asas largas e cauda circular executando acrobacias aéreas, sobre as encostas. Aproveitando o vento frontal, fica por vezes imóvel, como se um fio invisível a prendesse ao céu. O seu olhar penetrante pesquisa junto ao solo os movimentos descuidados de qualquer pequena ave ou mamífero.
Longe dos olhares gulosos da águia-de-asa-redonda ou do perturbador comportamento dos humanos, no fundo das fissuras dos calcários ou na escuridão das grutas, os morcegos aguardam o lusco-fusco para se deleitarem até aos primeiros momentos da alvorada com a sua refeição diária. Dos cantos mais recônditos das buracas sai uma multidão destes mamíferos-voadores de várias espécies que, sem darem tréguas, se precipitam em caça nocturna sobre a miríade de insectos que enxameiam o vale. Todas as noites.
A Serra do Circo, ou da Senhora do Circo ou do Círculo é um relevo tectónico fortemente assimétrico. Apesar do seu cume não ultrapassar os 406 metros, daqui se dominam não apenas as paisagens cársicas do Vale das Buracas e da Serra do Rabaçal, visíveis para oriente, mas também uma vasta área que nos leva às praias da Figueira da Foz e aos campos do Mondego, permitindo, como nenhum outro sítio, uma leitura arqueológica da paisagem. Subindo a esta serra, compreende-se mais facilmente a evolução que traçámos nas primeiras páginas deste roteiro. Pena é que o carácter magestoso deste cenário natural seja ensombrado pelas enormes feridas que, nos últimos anos, o homem nela tem vindo a abrir numa incessante busca de pedra.
Outro atractivo deste cimo são alguns aspectos cársicos de pormenor do relevo que aqui se lavra. Desde os campos de lapiás, mais ou menos enterrados, até uma dolina parcialmente cultivada e o pequeno algarocho que se abre no fundo, há todo um sentimento provocado pela paisagem cársica que apenas pode ser fruído por quem visitar esta serra.
A omnipresença da pedra, a secura das terras, a vastidão e o carácter agreste da paisagem, enfim, a sensação de temor que se respira, justificam certamente a profunda religiosidade dos camponeses serranos e os cultos aqui desenvolvidos.
A par de práticas ocultistas que discretamente se realizam em noites que só os iniciados conhecem, a festa religiosa anual continua a registar muita gente, atraídos alguns pela romaria, a maior parte pela devoção a Senhora de muitos milagres. Contudo, muitas coisas mudaram na tradição, desde o dia da festa ŕ apanha das cucas que os rapazes ofereciam às namoradas.
Neste caso, perdeu o costume o que a natureza ganhou, pois a cuca mais não é do que a rosa-albardeira, já tão rara.
No ponto mais alto da serra, donde em dias límpidos nos chega o azul do mar, já na Idade Média se erguia templo a Senhora do Circo, materializada em imagem gótica que ainda hoje se venera. A capela foi barbaramente modernizada mas guarda o círculo de pedra que a protege e que pode estar na origem do nome da virgem, testemunhando quem sabe outras formas de culto mais antigas.
Festa da Senhora do Círculo: 2º Domingo Pascal
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